quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Wasteland

Rio Grande, Terra Devastada, 20 de setembro de 2012.


Primeiro foram 3 dias seguidos de chuva intensa, coroados com 4 precipitações de granizo em menos de 12 horas.

Aí veio o vento e a cidade foi fustigada por sopros raivosos vindos direto do inferno. Rajadas de mais de 100km/h.

Um contêiner caiu no porto, matando dois trabalhadores.
A lancha que faz a travessia para o vilarejo vizinho virou. Já foram encontrados 5 corpos e ainda não se sabe o número oficial de desaparecidos.

Meu amigo Nicholas, baterista da Josephines, foi corajosamente para a esquina dos quatro ventos, local famoso na localidade, por ter sempre forte ventania, mesmo em dias calmos. Ainda não se sabe seu paradeiro.

Imbuído de coragem e pensamento prático resolvi ir ao mercado, para estocar provisões. Cheguei tarde e só sobraram restos, já tendo tudo sido saqueado pela turba em fúria.


Aí faltou luz.

Minha jornada de volta para casa foi uma experiência extra corpórea, em que me senti plenamente integrado ao sítio escuro pela qual passei ao rumar para minha residência. Cheguei a desconhecer os limites de meu próprio corpo, tomado pela escuridão total, mas finalmente cheguei em casa, para ler Érico Veríssimo à luz de velas, enquanto tento não pensar no dia que se aproxima. 

Escrevo esse texto rapidamente, tomado pela urgência antes que a luz caia novamente. Daqui a poucas horas o dia amanhecerá e terei que lutar pela sobrevivência. Meu plano inicial é conseguir armas, água e baterias. Também preciso de botas novas e um corte de cabelo, mas isso não é essencial. O essencial é sobreviver.

E se eu sobreviver continuo com o relato.